Por que a fissura mamilar importa
A fissura — rachadura ou ferida no mamilo — é uma das queixas mais comuns nos primeiros dias de amamentação, e a dor que ela causa é um dos motivos que levam muitas mulheres a pensar em parar. Quase sempre há uma causa por trás: pega, posição, frênulo lingual do bebê, ingurgitamento. Por isso, qualquer conversa sobre laser começa pela causa, e não pelo aparelho. Se você está nesse ponto agora, veja também o que fazer com a fissura no mamilo.
O que é a laserterapia de baixa potência
Também chamada de fotobiomodulação, ela usa luz de baixa intensidade aplicada sobre a lesão — nos estudos com fissura mamilar, luz vermelha de 660 nm. Não corta e não é laser cirúrgico. O objetivo é reduzir a dor e favorecer a cicatrização.
O que os estudos mostram
A evidência existe, mas é menor e menos consistente do que costuma ser anunciada. Os principais estudos:
- Ensaio clínico triplo-cego (Coca e colaboradores, 2016, 59 mulheres, São Paulo). Três aplicações, com 24 horas de intervalo. O grupo que recebeu laser teve redução de 2 pontos (numa escala de 0 a 10) na dor 24 horas após a primeira aplicação e dor menor que a do grupo controle.
- Ensaio clínico duplo-cego (Camargo e colaboradores, 2020, 80 mulheres). Uma única aplicação. A dor caiu cerca de 1 ponto nos dois grupos, com e sem laser: a aplicação isolada não mostrou benefício sobre o controle. Algumas mulheres sentiram formigamento.
- Revisão sistemática com meta-análise (Alves e colaboradores, 2025, 7 ensaios). Encontrou menos dor durante a mamada e cicatrização mais rápida com o laser, mas classificou a certeza da evidência como baixa e pediu estudos maiores e padronizados.
- Outra revisão com meta-análise (Gaitero e colaboradores, 2025, 3 ensaios). Não encontrou diferença significativa na dor entre laser e controle, e também concluiu que é preciso mais pesquisa.
Em resumo: alguns estudos sugerem alívio da dor, outros não encontram diferença, e os protocolos (dose, número de sessões) ainda variam muito. O laser é um recurso complementar razoável, não um tratamento de eficácia comprovada.
É seguro amamentar durante o tratamento?
Sim. A base LactMed, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, considera a laserterapia e a fototerapia aceitáveis durante a amamentação. O bebê pode continuar mamando normalmente.
O que o laser não faz
- Não corrige a causa. Se a pega continua difícil ou o frênulo do bebê limita a mamada, a fissura tende a voltar.
- Não trata infecção. Suspeita de infecção, por bactéria ou fungo, precisa de avaliação e tratamento médico. O laser não substitui antibiótico nem antifúngico.
- Não tem prazo garantido. A resposta varia de mulher para mulher; não há como prometer alívio em um número fixo de horas ou de sessões.
Como uso o laser na prática
Na minha prática, a laserterapia entra sempre dentro de uma avaliação completa da mamada: observo pega, posição, sucção, frênulo e peso do bebê, corrijo o que for possível ali mesmo e, quando faz sentido, uso o laser como apoio para a dor enquanto a causa é resolvida. O número de sessões é combinado conforme a resposta.
Este texto é informativo e não substitui avaliação individual. Dor intensa, febre, área vermelha e endurecida na mama ou ferida que não melhora são motivos para procurar atendimento.
— Ana Angélica Abbas · Enfermeira Obstetra · COREN-MG 376.105

