O problema: fissura mamilar é a principal causa de desmame precoce
A fissura mamilar — rachadura ou lesão no mamilo — é uma das intercorrências mais frequentes na amamentação. Estudos epidemiológicos reportam prevalência entre 34% e 96% das mulheres na primeira semana pós-parto, dependendo da metodologia utilizada (Coca KP et al., 2010). É a queixa clínica mais relatada por puérperas em maternidades e o principal motivo de busca por suporte em amamentação nas primeiras 72 horas.
Além do impacto direto na qualidade de vida materna, a fissura é um fator de risco independente para desmame precoce — interrompendo o aleitamento materno exclusivo antes dos 6 meses recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023).
O que é a laserterapia (LLLT) — mecanismo de ação
A laserterapia de baixa potência — também chamada de LLLT (Low-Level Laser Therapy) ou fotobiomodulação (PBM) — utiliza luz de comprimento de onda específico (tipicamente 650–980 nm) para estimular o metabolismo celular sem produzir calor significativo no tecido.
Os três mecanismos principais documentados pela literatura são:
- Analgesia: redução da síntese de prostaglandinas e modulação dos nociceptores locais, resultando em alívio da dor.
- Cicatrização tecidual (biostimulação): estimulação dos fibroblastos, aumento da síntese de colágeno e aceleração da reepitelização.
- Anti-inflamação: redução de mediadores inflamatórios (IL-1β, TNF-α) no tecido lesionado.
O que as evidências científicas mostram
A eficácia da laserterapia para fissura mamilar é suportada por ensaios clínicos randomizados e revisões da literatura publicados em periódicos indexados:
Coca KP, Marcacine KO, Gamba MA, Corrêa L, Aranha ACC, Abrão ACFV. "Efficacy of Low-Level Laser Therapy in Relieving Nipple Pain in Breastfeeding Women." Pain Management Nursing. 2016;17(4):281–289. PMID: 27157923 — Este ECR demonstrou redução estatisticamente significativa da dor mamilar em 24 e 48 horas após a primeira sessão de LLLT em comparação ao grupo controle.
Coca KP, Abrão ACFV. "O uso do laser de baixa intensidade para o tratamento da fissura mamilar em lactantes." Acta Paulista de Enfermagem. 2008;21(Número Especial):98–103. — Estudo que avaliou cicatrização de fissuras mamilares com LLLT, demonstrando redução do tempo de cicatrização.
Uma revisão narrativa publicada no Journal of Human Lactation em 2016 (Morino C, Wägner MO) analisou estudos sobre intervenções físicas para dor mamilar e concluiu que a LLLT apresenta potencial como opção terapêutica, embora os autores ressaltem a necessidade de maior padronização metodológica nos estudos disponíveis.
O que a laserterapia NÃO faz — limites e riscos reais
A laserterapia trata o sintoma (lesão e dor), mas não elimina a causa. Se a causa da fissura — má pega, freio lingual do bebê, ingurgitamento — não for identificada e corrigida, a lesão recidiva independentemente do tratamento utilizado. Esse é o principal erro clínico observado: tratar a fissura sem avaliar a dinâmica da mamada.
Contraindicações absolutas na região mamilar: suspeita de neoplasia mamária, lesões com infecção bacteriana ativa (não é substituto de antibioticoterapia), e áreas com tatuagem recente. A aplicação deve ser feita por profissional habilitado.
A laserterapia é segura para o bebê — não há contraindicação para a amamentação durante o tratamento. A luz de baixa potência não atravessa os tecidos a ponto de atingir o leite na glândula mamária.
Protocolo clínico: como funciona na prática
O protocolo pode variar conforme o equipamento e as características da lesão (profundidade, extensão, grau da fissura). De forma geral:
- Comprimento de onda: 660 nm (vermelho, indicado para lesões superficiais) ou 830 nm (infravermelho próximo, maior penetração tecidual).
- Número de sessões: tipicamente 3 a 5 sessões, com intervalo de 24 a 48 horas entre elas.
- Resposta clínica esperada: alívio da dor nas primeiras 24 horas; melhora visível da lesão após a 2.ª ou 3.ª sessão.
- O protocolo SEMPRE deve incluir avaliação e correção da causa da fissura.
Conclusão — uma ferramenta clínica, não uma cura mágica
A laserterapia de baixa potência (LLLT) é uma ferramenta terapêutica com embasamento científico crescente para o tratamento da fissura mamilar e alívio da dor na amamentação. Ela é eficaz, segura e não interfere com o aleitamento materno. No entanto, sua eficácia plena depende de uma avaliação clínica completa que investigue e corrija a causa subjacente da lesão.
Na minha prática clínica, utilizo a laserterapia como parte de um protocolo integrado — nunca como intervenção isolada. O objetivo é sempre preservar o aleitamento materno exclusivo pelo maior tempo possível, com conforto para a mãe e nutrição adequada para o bebê.
— Ana Angélica Abbas · Enfermeira Obstetra · COREN-MG 376.105
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