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Mastite: sinais, tratamento e o que mudou nas recomendações

Ana Abbas
06 de outubro de 2026
Mastite: sinais, tratamento e o que mudou nas recomendações

Diante de uma mastite, o que fazer é manter a rotina normal de mamadas ou de ordenha, aplicar gelo ou compressas frias, usar um sutiã confortável e com boa sustentação, conversar com o médico sobre analgésico ou anti-inflamatório e procurar avaliação se os sintomas piorarem ou persistirem por mais de 24 horas. O que não fazer mudou bastante em 2022, e é a parte mais importante deste texto: nada de massagem profunda, nada de calor e nada de esvaziar a mama por completo.

Como a mastite se manifesta

O quadro costuma começar com uma área da mama dolorida, endurecida, vermelha e quente, e evoluir com sintomas gerais: febre, calafrios, dores no corpo, sensação de gripe forte. A dor tende a ser localizada, diferente do desconforto difuso da mama cheia.

A diretriz de cuidado pós-natal do NICE inclui, entre os sinais de condições potencialmente graves na puérpera que pedem avaliação sem demora, a vermelhidão e o inchaço das mamas que pioram e persistem por mais de 24 horas apesar das medidas iniciais. Na mesma lista aparecem febre, calafrios e secreção com odor desagradável como sinais de infecção. Essa é a régua: piora ou persistência apesar das medidas iniciais.

O que mudou nas recomendações

Até pouco tempo atrás, a orientação corrente diante de uma mama inflamada era calor, massagem vigorosa e esvaziamento completo. Se foi isso que te ensinaram, você não estava desinformada. Era o que se dizia.

A síntese oficial do protocolo de 2022 da Academy of Breastfeeding Medicine sobre o espectro da mastite inverteu três desses pontos:

  • Gelo, não calor. A aplicação de calor passou para a lista do que não é recomendado. O que se recomenda é gelo ou compressas frias.
  • Nada de massagem profunda. A massagem profunda no tecido mamário aumenta a inflamação e piora as condições do espectro da mastite. O que pode ajudar a reduzir o edema é massagem suave ou drenagem linfática.
  • Não esvaziar por completo. A orientação é manter a rotina normal de mamadas ou de ordenha, em vez de tentativas frequentes de esvaziar completamente a mama.

Há uma lógica por trás dessa virada. O protocolo trata a mastite como um espectro que começa no edema e na inflamação, não como uma obstrução mecânica que precisa ser desentupida à força. Massagear e esvaziar demais adicionam trauma e sinalizam para o corpo produzir mais leite, o que alimenta o próprio ciclo.

O que fazer

  • manter a rotina normal de mamadas ou de ordenha, sem aumentar a frequência para esvaziar;
  • aplicar gelo ou compressas frias na região dolorida;
  • usar sutiã confortável e com boa sustentação;
  • massagem suave ou drenagem linfática, se ajudar a reduzir o edema;
  • conversar com o médico sobre paracetamol ou ibuprofeno para reduzir o edema e aliviar a dor;
  • descansar de verdade, o que quase sempre depende de a rede de apoio assumir o resto;
  • ser avaliada pelo médico se os sintomas piorarem ou persistirem por mais de 24 horas. Havendo infecção bacteriana, ele pode indicar antibiótico e, conforme o caso, probiótico.

Não coloco dose de nada aqui, e é proposital. Analgésico e anti-inflamatório na lactação são conversa com quem prescreve, considerando seu histórico.

O que não fazer

  • massagem profunda no tecido mamário;
  • aplicar calor, incluindo compressa quente e banho quente prolongado sobre a mama;
  • uso excessivo de bomba e bicos de silicone;
  • massageadores, escovas de dente elétricas ou outros aparelhos vibratórios sobre a mama;
  • encharcar a mama com solução salina, óleo de rícino ou outros produtos tópicos.

Se você já fez alguma dessas coisas, não se culpe: elas circulam há décadas e ainda aparecem em muito conteúdo. O que importa agora é parar e seguir a orientação atual.

A mastite bacteriana não é contagiosa

Esse ponto tranquiliza muita gente e está explícito na síntese do protocolo: a mastite bacteriana não é contagiosa, e é seguro continuar oferecendo o leite ao bebê, sem esterilização adicional além da limpeza habitual. Não é preciso descartar o leite nem interromper a amamentação por causa disso.

Sobre a origem, o mesmo documento traz uma mudança de entendimento que vale conhecer. A pesquisa mais recente sugere que a infecção resulta de disbiose mamária, ou seja, de um desequilíbrio da microbiota da mama, associada a fatores como genética, condições médicas, exposição a antibióticos, uso de probióticos, uso frequente de bomba e parto cesáreo. Repare que a lista não inclui descuido, higiene ou falta de esforço. Mastite não é castigo por ter feito algo errado.

Uma exceção importante vem do material oficial de aleitamento materno: o abscesso mamário contraindica a amamentação na mama afetada até que ele tenha sido drenado, e a amamentação deve ser mantida na mama sadia. Abscesso é outra situação, e ela é cirúrgica.

Sinais de alerta

Procure avaliação médica sem demora diante de:

  • sintomas que pioram ou persistem por mais de 24 horas apesar das medidas iniciais;
  • febre alta, calafrios intensos ou prostração;
  • área da mama muito endurecida, flutuante ou com saída de secreção purulenta, o que pode indicar abscesso;
  • vermelhidão que se espalha rapidamente;
  • dor que impede completamente a amamentação naquela mama;
  • bebê com menos fraldas molhadas e sujas do que o esperado para o dia de vida dele.

Como reduzir a chance de repetir e quando pedir ajuda

Mastite não tem causa única, e nenhuma das que o protocolo descreve é descuido. Os fatores que ele associa à disbiose mamária são genética, condições médicas, exposição a antibióticos, uso de probióticos, uso frequente de bomba e parto cesáreo. Desses, o único em que o manejo da amamentação mexe diretamente é a rotina de retirada de leite.

E é aí que a pega volta a aparecer. O material oficial de aleitamento materno registra que a pega incorreta é a principal causa da remoção ineficiente de leite. Uma mama que não é bem esvaziada nas mamadas tende a exigir mais retirada por outros meios, e é esse conjunto que se pode revisar.

Por isso, o trabalho de prevenção é o mesmo trabalho da amamentação em si. Escrevi sobre a mama tensa em peito empedrado, sobre a lesão do mamilo em fissura no mamilo e sobre o que esperar na fase de mama cheia em apojadura.

Mastite mistura duas coisas que precisam andar juntas: o tratamento clínico, que é médico, e o manejo da amamentação, que evita a repetição. Uma consultoria de amamentação cuida da segunda parte, avaliando pega, transferência de leite e rotina de retirada. Se a situação é aguda, veja o atendimento de urgência em amamentação. Os demais textos estão no hub de amamentação.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual. Diante de febre, piora ou suspeita de abscesso, procure atendimento médico.

Perguntas frequentes

Posso continuar amamentando com mastite?

Sim. A orientação do protocolo de 2022 é manter a rotina normal de mamadas ou de ordenha. A mastite bacteriana não é contagiosa e é seguro continuar oferecendo o leite ao bebê, sem esterilização adicional além da limpeza habitual. A exceção é o abscesso: ele contraindica a amamentação na mama afetada até ser drenado, mantendo-se a mama sadia.

Massagem forte ajuda a desobstruir?

Não. A massagem profunda no tecido mamário está entre as condutas não recomendadas, porque aumenta a inflamação e piora as condições do espectro da mastite. O que pode ajudar a reduzir o edema é massagem suave ou drenagem linfática.

Compressa quente ou fria?

Fria. A síntese oficial do protocolo de 2022 recomenda gelo ou compressas frias e lista a aplicação de calor entre o que não é recomendado.

Quando o antibiótico entra?

A orientação é ser avaliada pelo médico se os sintomas piorarem ou persistirem por mais de 24 horas. Ele pode indicar antibiótico e, conforme o caso, probiótico, se houver infecção bacteriana. Nem toda mastite é bacteriana, e a decisão é de quem examina.

Por que tive mastite?

A pesquisa mais recente citada no protocolo sugere que a infecção resulta de disbiose mamária, associada a fatores como genética, condições médicas, exposição a antibióticos, uso de probióticos, uso frequente de bomba e parto cesáreo. Não é consequência de descuido.

Referências

  1. Mastitis: Updated Guidance (síntese oficial do ABM Clinical Protocol #36 — The Mastitis Spectrum, 2022) — Minnesota Department of Health (2023). Consultado em 07/09/2026.
  2. Postnatal care (NG194) — NICE (Reino Unido) (2021). Consultado em 07/09/2026.
  3. Caderno de Atenção à Saúde da Criança — Aleitamento Materno — Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, com base no Caderno de Atenção Básica nº 23 do Ministério da Saúde. Consultado em 07/09/2026.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual. Em caso de sinais de alerta, procure a maternidade ou um serviço de urgência.

Ana Angélica Abbas, Enfermeira Obstetra

Sobre a autora

Ana Angélica Abbas · Enfermeira Obstetra

Enfermeira Obstetra (COREN-MG 376.105) com mais de 14 anos de experiência clínica em Belo Horizonte. Especialista em parto humanizado, consultoria de amamentação, laserterapia e pós-parto, com prática baseada em evidências (OMS, ACOG, NICE, Cochrane).

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