A fissura no mamilo não é sinal de pele frágil nem etapa obrigatória da amamentação. O material oficial de aleitamento materno é direto sobre a conduta: diante de fissura, corrigir a causa, ou seja, o posicionamento e a pega. Cuidar da lesão sem mudar o que a produz é tratar o efeito e manter o mecanismo. Por isso este texto começa pela pega e só depois fala do mamilo.
Por que a fissura aparece
Na mamada eficiente, o bebê abocanha o mamilo e uma boa parte da aréola, e o mamilo fica bem dentro da boca, longe do atrito. Quando ele apreende só o mamilo, a compressão acontece exatamente na ponta, mamada após mamada, muitas vezes ao longo do dia. A pele não tem como dar conta disso.
O material de aleitamento materno da rede pública, baseado no Caderno de Atenção Básica nº 23 do Ministério da Saúde, define pega inadequada justamente assim: quando a criança apreende somente o mamilo. E registra que a pega incorreta é a principal causa da remoção ineficiente de leite. É a mesma raiz para dois problemas que parecem diferentes: a mama que não esvazia e o mamilo que rachou.
Há um agravante frequente. Quando a mama está muito cheia, a aréola pode estar tensa e endurecida, o que dificulta a pega. O bebê escorrega para a ponta porque não consegue abocanhar mais. A orientação do mesmo material é retirar um pouco de leite da aréola ingurgitada antes de colocá-lo para mamar.
O primeiro tratamento é corrigir a pega
Os critérios que o material oficial descreve, e que valem conferir um a um:
- a cabeça do bebê no mesmo nível da mama, com a boca abaixo do nível do mamilo;
- esperar que ele abra bem a boca e abaixe a língua antes de aproximá-lo;
- abocanhar, além do mamilo, parte da aréola, aproximadamente 2 cm além dele;
- queixo tocando a mama e narinas livres;
- boca bem aberta e colada na mama, sem apertar os lábios;
- lábios curvados para fora, formando um lacre;
- língua sobre a gengiva inferior.
O detalhamento completo, com o que costuma dar errado em cada item, está em pega correta na amamentação. Se depois de ajustar tudo a dor continuar igual, vale investigar alteração do frênulo lingual, sobre a qual escrevi em língua presa do bebê.
O que fazer com o mamilo já ferido
Aqui é onde preciso ser honesta com você sobre os limites do que posso afirmar. Na biblioteca de fontes verificadas que sustenta os textos deste site, não há documento que sustente a indicação de uma pomada específica para fissura mamilar. Então não vou indicar marca nem princípio ativo, e desconfie de qualquer texto que faça isso sem citar de onde tirou.
O que existe, explícito, é uma lista do que não fazer. A síntese oficial do protocolo de 2022 da Academy of Breastfeeding Medicine sobre o espectro da mastite desaconselha encharcar a mama com solução salina, óleo de rícino ou outros produtos tópicos. Desaconselha também massagem profunda no tecido mamário, que aumenta a inflamação, e a aplicação de calor. Para desconforto e edema, o que ela recomenda é gelo ou compressas frias e um sutiã confortável e com boa sustentação.
Vale reparar que essas orientações são de um documento sobre inflamação e infecção mamária. Elas se aplicam ao contexto em que uma fissura pode evoluir, que é exatamente o cenário que preocupa quando há porta de entrada na pele.
O que costuma reduzir o dano no dia a dia
- desfazer o vácuo com o dedo mínimo limpo no canto da boca antes de afastar o bebê, em vez de puxar;
- começar a mamada pela mama menos dolorida, quando o bebê suga com mais força;
- amolecer a aréola com um pouco de leite retirado antes, se a mama estiver muito cheia;
- variar as posições de amamentar, para que a compressão não caia sempre no mesmo ponto;
- manter a região seca e sem atrito de tecido áspero entre as mamadas.
Nenhuma dessas medidas substitui a correção da pega. Elas reduzem a dor enquanto a causa é resolvida.
Onde entra a laserterapia
A laserterapia é um dos recursos que ofereço nesses casos, e aqui também vou ser precisa: entre as fontes verificadas que uso neste site não há documento que meça o efeito do laser na cicatrização da fissura mamilar. Reuni o que a literatura mostra, com as limitações que ela tem, em laserterapia na amamentação: o que a ciência diz. Prefiro que você leia isso e decida, em vez de receber uma promessa.
O que é seguro dizer é o enquadramento: laser é recurso complementar, aplicado sobre uma fissura cuja causa está sendo corrigida em paralelo. Sem essa correção, qualquer tratamento local trabalha contra a mamada seguinte. A descrição do atendimento está em laserterapia na amamentação.
Sinais de alerta
A diretriz de cuidado pós-natal do NICE inclui o estado das mamas e dos mamilos entre os itens da avaliação da amamentação, e lista, entre os sinais que pedem avaliação sem demora no pós-parto, vermelhidão e inchaço das mamas que pioram e persistem por mais de 24 horas apesar das medidas iniciais. Procure avaliação diante de:
- febre, calafrios ou sensação de gripe;
- vermelhidão, calor ou área endurecida na mama que não melhora;
- fissura profunda, com sangramento ou com sinais de infecção como secreção purulenta;
- dor que não cede depois de corrigir posicionamento e pega;
- bebê com menos fraldas molhadas e sujas do que o esperado para o dia de vida dele.
Quando pedir ajuda
Fissura dói de um jeito que muda a relação com a mamada, e ninguém precisa provar resistência até que sangre. Se a dor está impedindo você de oferecer o peito, ou se você não consegue enxergar sozinha o que está errado na pega, é hora de ter alguém observando uma mamada inteira.
É o que a consultoria de amamentação faz: avaliação da dupla, correção guiada em tempo real e um plano para os dias seguintes. Se a situação é aguda, veja o atendimento de urgência em amamentação. Os outros textos do tema estão no hub de amamentação.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.

