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Fissura no mamilo: por que acontece e o que realmente ajuda

Ana Abbas
20 de setembro de 2026
Revisado em 05 de outubro de 2026
Fissura no mamilo: por que acontece e o que realmente ajuda

A fissura no mamilo não é sinal de pele frágil nem etapa obrigatória da amamentação. O material oficial de aleitamento materno é direto sobre a conduta: diante de fissura, corrigir a causa, ou seja, o posicionamento e a pega. Cuidar da lesão sem mudar o que a produz é tratar o efeito e manter o mecanismo. Por isso este texto começa pela pega e só depois fala do mamilo.

Por que a fissura aparece

Na mamada eficiente, o bebê abocanha o mamilo e uma boa parte da aréola, e o mamilo fica bem dentro da boca, longe do atrito. Quando ele apreende só o mamilo, a compressão acontece exatamente na ponta, mamada após mamada, muitas vezes ao longo do dia. A pele não tem como dar conta disso.

O material de aleitamento materno da rede pública, baseado no Caderno de Atenção Básica nº 23 do Ministério da Saúde, define pega inadequada justamente assim: quando a criança apreende somente o mamilo. E registra que a pega incorreta é a principal causa da remoção ineficiente de leite. É a mesma raiz para dois problemas que parecem diferentes: a mama que não esvazia e o mamilo que rachou.

Há um agravante frequente. Quando a mama está muito cheia, a aréola pode estar tensa e endurecida, o que dificulta a pega. O bebê escorrega para a ponta porque não consegue abocanhar mais. A orientação do mesmo material é retirar um pouco de leite da aréola ingurgitada antes de colocá-lo para mamar.

O primeiro tratamento é corrigir a pega

Os critérios que o material oficial descreve, e que valem conferir um a um:

  • a cabeça do bebê no mesmo nível da mama, com a boca abaixo do nível do mamilo;
  • esperar que ele abra bem a boca e abaixe a língua antes de aproximá-lo;
  • abocanhar, além do mamilo, parte da aréola, aproximadamente 2 cm além dele;
  • queixo tocando a mama e narinas livres;
  • boca bem aberta e colada na mama, sem apertar os lábios;
  • lábios curvados para fora, formando um lacre;
  • língua sobre a gengiva inferior.

O detalhamento completo, com o que costuma dar errado em cada item, está em pega correta na amamentação. Se depois de ajustar tudo a dor continuar igual, vale investigar alteração do frênulo lingual, sobre a qual escrevi em língua presa do bebê.

O que fazer com o mamilo já ferido

Aqui é onde preciso ser honesta com você sobre os limites do que posso afirmar. Na biblioteca de fontes verificadas que sustenta os textos deste site, não há documento que sustente a indicação de uma pomada específica para fissura mamilar. Então não vou indicar marca nem princípio ativo, e desconfie de qualquer texto que faça isso sem citar de onde tirou.

O que existe, explícito, é uma lista do que não fazer. A síntese oficial do protocolo de 2022 da Academy of Breastfeeding Medicine sobre o espectro da mastite desaconselha encharcar a mama com solução salina, óleo de rícino ou outros produtos tópicos. Desaconselha também massagem profunda no tecido mamário, que aumenta a inflamação, e a aplicação de calor. Para desconforto e edema, o que ela recomenda é gelo ou compressas frias e um sutiã confortável e com boa sustentação.

Vale reparar que essas orientações são de um documento sobre inflamação e infecção mamária. Elas se aplicam ao contexto em que uma fissura pode evoluir, que é exatamente o cenário que preocupa quando há porta de entrada na pele.

O que costuma reduzir o dano no dia a dia

  • desfazer o vácuo com o dedo mínimo limpo no canto da boca antes de afastar o bebê, em vez de puxar;
  • começar a mamada pela mama menos dolorida, quando o bebê suga com mais força;
  • amolecer a aréola com um pouco de leite retirado antes, se a mama estiver muito cheia;
  • variar as posições de amamentar, para que a compressão não caia sempre no mesmo ponto;
  • manter a região seca e sem atrito de tecido áspero entre as mamadas.

Nenhuma dessas medidas substitui a correção da pega. Elas reduzem a dor enquanto a causa é resolvida.

Onde entra a laserterapia

A laserterapia é um dos recursos que ofereço nesses casos, e aqui também vou ser precisa: entre as fontes verificadas que uso neste site não há documento que meça o efeito do laser na cicatrização da fissura mamilar. Reuni o que a literatura mostra, com as limitações que ela tem, em laserterapia na amamentação: o que a ciência diz. Prefiro que você leia isso e decida, em vez de receber uma promessa.

O que é seguro dizer é o enquadramento: laser é recurso complementar, aplicado sobre uma fissura cuja causa está sendo corrigida em paralelo. Sem essa correção, qualquer tratamento local trabalha contra a mamada seguinte. A descrição do atendimento está em laserterapia na amamentação.

Sinais de alerta

A diretriz de cuidado pós-natal do NICE inclui o estado das mamas e dos mamilos entre os itens da avaliação da amamentação, e lista, entre os sinais que pedem avaliação sem demora no pós-parto, vermelhidão e inchaço das mamas que pioram e persistem por mais de 24 horas apesar das medidas iniciais. Procure avaliação diante de:

  • febre, calafrios ou sensação de gripe;
  • vermelhidão, calor ou área endurecida na mama que não melhora;
  • fissura profunda, com sangramento ou com sinais de infecção como secreção purulenta;
  • dor que não cede depois de corrigir posicionamento e pega;
  • bebê com menos fraldas molhadas e sujas do que o esperado para o dia de vida dele.

Quando pedir ajuda

Fissura dói de um jeito que muda a relação com a mamada, e ninguém precisa provar resistência até que sangre. Se a dor está impedindo você de oferecer o peito, ou se você não consegue enxergar sozinha o que está errado na pega, é hora de ter alguém observando uma mamada inteira.

É o que a consultoria de amamentação faz: avaliação da dupla, correção guiada em tempo real e um plano para os dias seguintes. Se a situação é aguda, veja o atendimento de urgência em amamentação. Os outros textos do tema estão no hub de amamentação.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.

Perguntas frequentes

Qual pomada usar na fissura do mamilo?

Não indico produto aqui porque, na biblioteca de fontes verificadas que sustenta este site, não há documento que sustente a indicação de uma pomada específica. O que existe é a orientação do protocolo de 2022 de não encharcar a mama com solução salina, óleo de rícino ou outros produtos tópicos.

Preciso parar de amamentar até a fissura cicatrizar?

Em geral não. A conduta descrita no material oficial é corrigir o posicionamento e a pega. Em fissuras grandes, com erosão ou dor muito intensa, o mesmo material prevê pausar temporariamente aquela mama, ordenhar e oferecer o leite no copinho por poucos dias, retomando aos poucos. Essa decisão se toma com quem avalia a mamada. Se a dor está impedindo qualquer mamada, procure avaliação para decidir o plano com quem acompanha o caso.

Posso passar o próprio leite no mamilo?

O material oficial de aleitamento materno que cito aqui inclui passar o próprio leite nos mamilos e expô-los ao ar entre as intervenções para fissura, mas não mede o efeito disso na cicatrização. O que muda a evolução é a correção da causa. Não vou afirmar que funciona nem que não funciona. O que muda a evolução da fissura é a correção da causa.

A laserterapia cicatriza a fissura?

Não vou prometer resultado. Entre as fontes verificadas que uso neste site não há documento que meça o efeito do laser na fissura mamilar. Ele é usado como recurso complementar, com a correção da pega acontecendo em paralelo.

Quando a fissura vira um problema mais sério?

Quando aparecem febre, calafrios, vermelhidão que piora, área endurecida que não melhora ou secreção purulenta. A diretriz do NICE aponta vermelhidão e inchaço da mama que persistem por mais de 24 horas apesar das medidas iniciais como sinal que pede avaliação sem demora.

Referências

  1. Caderno de Atenção à Saúde da Criança — Aleitamento Materno — Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, com base no Caderno de Atenção Básica nº 23 do Ministério da Saúde. Consultado em 07/09/2026.
  2. Mastitis: Updated Guidance (síntese oficial do ABM Clinical Protocol #36 — The Mastitis Spectrum, 2022) — Minnesota Department of Health (2023). Consultado em 07/09/2026.
  3. Postnatal care (NG194) — NICE (Reino Unido) (2021). Consultado em 07/09/2026.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual. Em caso de sinais de alerta, procure a maternidade ou um serviço de urgência.

Ana Angélica Abbas, Enfermeira Obstetra

Sobre a autora

Ana Angélica Abbas · Enfermeira Obstetra

Enfermeira Obstetra (COREN-MG 376.105) com mais de 14 anos de experiência clínica em Belo Horizonte. Especialista em parto humanizado, consultoria de amamentação, laserterapia e pós-parto, com prática baseada em evidências (OMS, ACOG, NICE, Cochrane).

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