Os pontos do parto normal pedem menos do que costumam dizer: higiene com água e sabonete suave no banho, secagem sem esfregar, troca frequente de absorvente e roupa que não aperte. Não é preciso passar antisséptico por conta própria nem fazer nada elaborado. O que realmente importa é observar: dor que aumenta em vez de diminuir, febre, calafrios, secreção com odor desagradável ou a sensação de que a ferida abriu são sinais de que você precisa ser avaliada, e em alguns casos no mesmo dia.
De onde vêm os pontos
As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal chamam de trauma perineal o dano provocado por episiotomia ou por lacerações. São origens diferentes. A laceração acontece durante a passagem do bebê; a episiotomia é um corte feito por indicação.
Sobre a episiotomia, as Diretrizes são explícitas: ela não deve ser realizada de rotina no parto vaginal espontâneo. Quando é feita, a indicação precisa ser justificada, recomenda-se a técnica médio-lateral e deve-se assegurar analgesia efetiva antes do procedimento. Se você recebeu episiotomia e não sabe por quê, é legítimo perguntar à equipe que assistiu o seu parto e pedir o registro.
A classificação do trauma vai pela profundidade. O documento define o primeiro grau como lesão apenas de pele e mucosas. Os graus seguintes envolvem estruturas mais profundas, e o grau exato do seu caso é o que está registrado por quem te atendeu. Peça essa informação: ela muda o acompanhamento e vale para gestações futuras.
Quem pode suturar
A Resolução COFEN nº 516/2016 prevê, entre as atribuições do enfermeiro obstétrico, a realização de episiotomia e episiorrafia, incluindo as rafias de lacerações de primeiro e segundo grau, com aplicação de anestesia local quando necessária. Lacerações mais profundas saem desse escopo. A mesma resolução determina o encaminhamento a nível de assistência mais complexo quando são detectados fatores de risco ou complicações. Saber onde ficam esses limites é parte de escolher quem cuida de você.
O cuidado diário, sem complicação
- Lave a região no banho, com água e sabonete suave, no sentido da frente para trás. Sem duchas internas.
- Seque por leves toques com toalha limpa, sem esfregar. Deixar secar ao ar por alguns minutos ajuda.
- Troque o absorvente com frequência e lave as mãos antes e depois. Use absorvente externo, nunca interno nem coletor, no puerpério imediato.
- Prefira calcinha de algodão e roupa folgada. Compressão sobre a região atrapalha mais do que ajuda.
- Não aplique pomadas, antissépticos ou receitas caseiras por conta própria. Se algo for indicado, será por quem avaliou a ferida.
- Ao evacuar, não segure e não force. Fibras, água e movimento costumam ajudar; se a constipação persistir ou a dor ao evacuar for forte, avise a equipe, que pode indicar um laxativo.
- Olhe a região, com espelho se precisar. Não é vaidade, é o único jeito de perceber mudança cedo.
O que é esperado e o que não é
Desconforto, sensação de peso e ardência ao urinar nos primeiros dias são queixas comuns e tendem a diminuir dia após dia. A direção é o dado mais importante: melhora lenta é aceitável, piora não é.
A diretriz de cuidado pós-natal do NICE lista, entre os sinais de condições potencialmente graves na puérpera, dor abdominal, pélvica ou perineal, febre, calafrios ou secreção com odor desagradável, que podem indicar infecção. Também entram na lista sangramento vaginal súbito ou muito intenso, ou que persiste e aumenta; inchaço e dor em uma perna, ou falta de ar; dor no peito; e dor de cabeça persistente ou intensa. Nenhum desses itens deve esperar a consulta de retorno.
Se a ferida abrir
Deiscência é o nome da abertura da ferida perineal. O NICE é direto quanto à conduta: encaminhamento urgente ao serviço especializado, para que a mulher seja vista no mesmo dia. Se você percebeu aumento súbito da dor, saída de secreção, afastamento das bordas ou simplesmente a sensação de que algo cedeu, procure atendimento hoje. Não é exagero e não é incômodo: é o caminho que a diretriz descreve.
Onde os pontos entram na avaliação puerperal
A Organização Mundial da Saúde lista, entre os itens a investigar em cada contato pós-natal após as primeiras 24 horas, a cicatrização da ferida perineal, a dor e a higiene perineal, além de micção e incontinência urinária, função intestinal, dor de cabeça, fadiga, dor lombar, dor mamária, sensibilidade uterina e lóquios. A ferida não é um assunto isolado, e é por isso que ela precisa ser olhada por alguém, e não só por você.
A mesma diretriz descreve o mínimo de quatro contatos pós-natais, nas primeiras 24 horas, entre 48 e 72 horas, entre 7 e 14 dias e na sexta semana. É nesse desenho que uma ferida em má evolução aparece cedo o suficiente para ser resolvida com pouco.
Quando pedir ajuda em casa
O acompanhamento no pós-parto em domicílio inclui a avaliação da ferida perineal ou operatória, do sangramento e da amamentação, com registro do que foi visto em cada visita. Ver a ferida evoluindo ao longo dos dias diz muito mais do que descrever a região por telefone. A laserterapia que ofereço tem indicação avaliada caso a caso, presencialmente, e não substitui nenhum dos cuidados descritos aqui. Se a dúvida do momento for o sangramento, escrevi sobre os lóquios, e os demais textos deste período estão no hub de pós-parto.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual. Diante de qualquer sinal de alerta, procure a maternidade ou um serviço de urgência.

