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Posições no trabalho de parto e no parto: o que a evidência mostra

Ana Abbas
27 de setembro de 2026
Revisado em 05 de outubro de 2026
Posições no trabalho de parto e no parto: o que a evidência mostra

Não existe uma posição eleita como a melhor para parir. O que existe nas diretrizes brasileiras é uma posição desencorajada e liberdade para todas as outras: a orientação é desencorajar a posição supina, o decúbito dorsal horizontal e a semi-supina no período expulsivo, e incentivar qualquer outra posição que a mulher ache confortável. A diferença entre essas duas formulações muda a conversa inteira.

O que as diretrizes dizem, na letra

As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal trazem, no item 113, a recomendação de desencorajar a posição supina, o decúbito dorsal horizontal e a posição semi-supina no segundo período do trabalho de parto, incentivando qualquer outra posição que a mulher ache mais confortável.

O NICE vai na mesma direção para o trabalho de parto inteiro: encorajar e ajudar a mulher a se movimentar e a adotar as posições que achar mais confortáveis.

Repare no verbo das duas recomendações. Nenhuma delas manda adotar cócoras, quatro apoios ou banqueta. Elas transferem a escolha para você e retiram uma opção do cardápio padrão. É uma recomendação sobre autonomia e sobre uma posição específica, não um ranking.

Por que isso importa mais do que parece

A posição deitada de costas é rotina em muitos serviços. Quando uma diretriz nacional escreve que ela deve ser desencorajada, o ônus da justificativa muda de lado: passa a caber uma razão para adotá-la, e não uma razão para evitá-la.

Isso é útil de saber antes, porque no meio do período expulsivo ninguém tem disposição para negociar nada.

O que muda, na prática, em cada posição

Aqui é preciso honestidade sobre os limites do que se pode afirmar. As diretrizes que citei desencorajam a supina e liberam as demais, mas não classificam as outras posições entre si. Então o que segue descreve como cada uma costuma ser usada, não uma hierarquia de eficácia.

PosiçãoComo costuma ser usada
Em pé, caminhandoFase inicial, alternando com descanso; permite apoio no acompanhante ou na parede.
Quatro apoiosAlívio de dor lombar; permite balanço da pelve e movimentos livres.
Sentada em bola ou banquetaDescanso com verticalidade; útil quando ficar em pé cansa.
De ladoDescanso real sem deitar de costas; opção quando a mobilidade está reduzida.
De cócorasVerticalidade no expulsivo; costuma exigir apoio para ser sustentada.
Deitada de costasDesencorajada no período expulsivo pelas diretrizes brasileiras.

A posição não anda sozinha

Liberdade de posição depende de três coisas que costumam ser tratadas separadamente e não deveriam: mobilidade, companhia e o que mais está sendo feito no corpo.

O NICE recomenda encorajar o apoio de acompanhante ou acompanhantes de escolha da mulher, e as diretrizes brasileiras registram que a mulher deve ter acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto e o parto. Isso não é um detalhe afetivo: muitas posições verticais só se sustentam com alguém apoiando. Sobre o que a literatura mostra a respeito dessa presença, veja este texto.

Há ainda uma prática que interfere diretamente: as diretrizes registram, no item 118, que a manobra de Kristeller não deve ser realizada no segundo período do trabalho de parto.

Como combinar isso com a equipe antes

  • Diga que você quer escolher a posição do período expulsivo e pergunte como o serviço costuma trabalhar isso.
  • Pergunte quais equipamentos existem: banqueta, bola, barra, cama que se transforma.
  • Pergunte em que situações a equipe precisaria que você mudasse de posição, e por quanto tempo.
  • Registre isso por escrito e leve com você. Uma preferência combinada antes é bem mais fácil de sustentar do que uma preferência anunciada no meio da contração.

Seus direitos nesse tipo de conversa estão reunidos em direitos no parto.

Situações em que a posição muda por indicação

Existem momentos em que a equipe precisa de uma posição específica, e isso não é desrespeito. Alterações nos batimentos do bebê, necessidade de um procedimento e emergências obstétricas são exemplos. As diretrizes brasileiras listam critérios objetivos de chamado médico e transferência, entre eles sangramento vaginal com exceção do tampão, mecônio significativo, febre a partir de 38 °C em medida única, alterações de pulso e pressão, dor diferente da associada às contrações e emergência obstétrica.

O que muda a experiência é a explicação: por que agora, por quanto tempo, e o que acontece depois.

Chegar preparada muda o resultado da conversa

Saber que existe uma recomendação escrita sobre posição, e saber citá-la sem confronto, costuma bastar. É parte do que se organiza no acompanhamento de parto hospitalar e do que se treina nos cursos para casais grávidos, onde as posições são praticadas com quem vai estar com você. Se você ainda está na fase inicial, este texto sobre a fase latente ajuda a entender o que fazer em casa.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.

Perguntas frequentes

Existe uma posição melhor para parir?

As diretrizes não elegem uma. Elas desencorajam a posição supina, o decúbito dorsal horizontal e a semi-supina no período expulsivo, e incentivam qualquer outra posição que a mulher ache confortável. A escolha é sua, dentro do que o momento permitir.

Posso ficar de cócoras no parto?

Pode, se for confortável para você e se as condições do momento permitirem. As diretrizes incentivam qualquer posição que não seja a supina ou semi-supina, sem hierarquizar entre as demais.

Se eu tomar analgesia, ainda posso mudar de posição?

A mobilidade fica reduzida, mas o princípio continua valendo: dá para alternar decúbitos, usar apoios e evitar ficar longos períodos deitada de costas. Combine isso com a equipe, porque depende do tipo de analgesia e das condições do momento.

E se a equipe pedir para eu deitar de costas?

Pergunte qual é a razão naquele momento. Existem situações clínicas em que uma posição específica é necessária por um período. Fora delas, a recomendação escrita é desencorajar a supina e a semi-supina no período expulsivo.

Referências

  1. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria MS nº 353/2017) — Ministério da Saúde (2017). Consultado em 07/09/2026.
  2. Intrapartum care (NG235) — NICE (Reino Unido) (2023). Consultado em 07/09/2026.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual. Em caso de sinais de alerta, procure a maternidade ou um serviço de urgência.

Ana Angélica Abbas, Enfermeira Obstetra

Sobre a autora

Ana Angélica Abbas · Enfermeira Obstetra

Enfermeira Obstetra (COREN-MG 376.105) com mais de 14 anos de experiência clínica em Belo Horizonte. Especialista em parto humanizado, consultoria de amamentação, laserterapia e pós-parto, com prática baseada em evidências (OMS, ACOG, NICE, Cochrane).

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