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Cólica do bebê: o que funciona, o que não funciona e o que só espera passar

Ana Abbas
22 de setembro de 2026
Revisado em 05 de outubro de 2026
Cólica do bebê: o que funciona, o que não funciona e o que só espera passar

Não existe, entre as fontes verificadas que uso neste site, uma revisão que sustente dizer que este ou aquele recurso resolve a cólica do bebê. Por isso este texto não vai te entregar uma lista de soluções com selo de evidência. Ele vai fazer o que é possível fazer com honestidade: descrever o choro que é esperado nessa fase, mostrar como separar cólica de doença usando as listas da OMS e do NICE, e dizer o que fazer em cada um dos dois casos.

Por que este texto não tem uma lista do que funciona

Este site tem uma regra de produção: só afirma o que está em documento lido no original e registrado na biblioteca de fontes. Sobre intervenções para cólica, essa biblioteca não tem revisão sistemática. Eu poderia repetir o que circula por aí. Prefiro dizer o que é verdade: a evidência disponível sobre o que alivia cólica é limitada, e boa parte do que se vende como solução, quando foi testada contra placebo, não mostrou benefício consistente.

Isso não é uma desistência. É a diferença entre um texto que te vende alívio e um que te ajuda a decidir. O que muda o desfecho de um bebê que chora muito não é o produto certo: é reconhecer, no meio do choro, o sinal que indica que aquilo não é cólica.

O choro que se espera nessa fase

Descrevo aqui o que vejo na prática clínica, e marco como experiência, não como evidência. O choro que costuma ser chamado de cólica aparece nas primeiras semanas, concentra-se mais no fim da tarde e no começo da noite, e vem em um bebê que, fora dessas crises, está bem: mama com frequência, ganha peso, molha e suja fraldas, tem a movimentação de sempre e se acalma no colo, ainda que demore.

Esse bebê costuma encolher as pernas, ficar vermelho e endurecer a barriga. Nada disso é exclusivo de dor abdominal, e é por isso que a palavra cólica descreve mal o que acontece. O que importa em casa não é o nome. É se o bebê está bem entre as crises.

O que tira a situação do território da cólica

Aqui a fonte é firme. A Organização Mundial da Saúde lista sinais de perigo no recém-nascido que devem ser avaliados em cada contato, com encaminhamento se presentes: não estar mamando bem; história de convulsão; respiração acelerada acima de 60 por minuto; retração torácica importante; ausência de movimentação espontânea; febre acima de 37,5 °C; temperatura abaixo de 35,5 °C; icterícia nas primeiras 24 horas de vida ou palmas e plantas amareladas em qualquer idade.

A diretriz de cuidado pós-natal do NICE acrescenta uma lista de sinais de alarme para doença grave em bebês pequenos:

  • aspecto pálido, acinzentado, marmóreo ou azulado;
  • bebê não responsivo ou difícil de acordar;
  • choro fraco, anormalmente agudo ou contínuo;
  • padrão respiratório anormal: gemência, frequência acima de 60 por minuto, retração torácica;
  • temperatura de 38 °C ou mais, ou abaixo de 36 °C;
  • manchas na pele que não desaparecem quando pressionadas;
  • moleira abaulada, rigidez de nuca, convulsões ou sinais neurológicos localizados;
  • diarreia com desidratação;
  • vômitos em jato frequentes, ou vômito esverdeado ou amarelo-esverdeado.

Repare no terceiro item: o próprio caráter do choro está lá. Choro fraco, anormalmente agudo ou contínuo não é cólica intensa. É um item de uma lista de alarme. E repare que os limiares de temperatura das duas fontes não coincidem, 37,5 °C na OMS e 38 °C no NICE. Não vou escolher um e apresentar como consenso: a leitura prudente é a mais baixa das duas.

A lista completa, com as duas fontes comparadas, está em sinais de alerta no recém-nascido. Se o choro vier junto de pele amarelada, vale ler também icterícia no recém-nascido.

A sua preocupação é dado clínico

O NICE orienta que profissionais ouçam com atenção as preocupações de quem cuida do bebê sobre a saúde dele e as tratem como indicador importante de possível doença grave. Isso está na diretriz, escrito, e vale ser dito em voz alta em uma cultura que costuma responder a mãe cansada com a frase de que é só cólica.

Se você acha que esse choro está diferente dos outros, essa percepção é informação. Procurar avaliação e não ser nada é um bom desfecho, não um incômodo.

Sobre medicamentos, gotas e produtos

Não indico medicamento nem dose em conteúdo educativo, e não tenho fonte na biblioteca deste site que sustente afirmar que simeticona, chás, compostos à base de plantas, probióticos ou fórmulas específicas resolvem cólica. Para a simeticona, uma revisão Cochrane de 2016 não encontrou benefício em relação ao placebo. Ficar em silêncio sobre o que não sei é parte do contrato.

O que eu digo com segurança: qualquer coisa oferecida a um recém-nascido, inclusive o que é vendido como natural, passa antes pelo pediatra que acompanha o seu bebê.

O que dá para fazer enquanto passa

Sem promessa de resultado, e sem apresentar como tratamento o que não é:

  • colo, contato pele a pele e movimento costumam acalmar, e não fazem mal;
  • revezar quem segura o bebê, sempre que houver com quem revezar, protege quem cuida do esgotamento; se você sentir que está perdendo a calma, coloque o bebê de barriga para cima no berço e se afaste por alguns minutos. Nunca sacuda um bebê, nem por um instante: isso pode causar lesão cerebral grave;
  • reduzir estímulo do ambiente, com luz baixa e menos ruído, é uma medida simples que muitas famílias acham útil;
  • oferecer o peito com frequência é adequado, e não há motivo para restringir mamadas por causa do choro;
  • a OMS registra que massagem suave de corpo inteiro pode ser considerada em recém-nascidos a termo e saudáveis, por possíveis benefícios ao crescimento e desenvolvimento. Essa recomendação não é sobre cólica, e não vou apresentá-la como tratamento.

Se a amamentação estiver dolorosa ou difícil, isso muda o quadro inteiro e merece avaliação própria. Comece por pega correta na amamentação.

Quando pedir ajuda

Sem esperar, diante de qualquer sinal das duas listas acima. Com agendamento, quando o choro está organizando a vida da casa, quando ninguém está dormindo, quando você já não consegue avaliar se aquilo é normal. O acompanhamento no pós-parto em domicílio existe para essa hora: avaliar o bebê e a amamentação em casa, no horário em que o problema acontece, e registrar por escrito o que o pediatra precisa saber. Depois da alta hospitalar, o Volta para Casa Segura cobre a mesma necessidade nos primeiros dias. Os outros textos desta fase estão em recém-nascido.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual do seu bebê pelo pediatra.

Perguntas frequentes

Simeticona funciona para cólica?

Não tenho, entre as fontes verificadas que uso neste site, um documento que sustente afirmar que sim ou que não. Por isso não recomendo nem desaconselho aqui, e não indico medicamento nem dose. Essa conversa é com o pediatra do seu bebê.

Como saber se é cólica ou se é doença?

Pela companhia. Cólica não vem com febre acima de 37,5 graus, temperatura abaixo de 35,5, respiração acima de 60 por minuto, gemência, retração das costelas, recusa alimentar, ausência de movimentação espontânea, vômito esverdeado ou manchas na pele que não desaparecem à pressão. Qualquer um desses sinais tira a situação do território da cólica.

Chá, gotas e compostos naturais ajudam?

Não tenho fonte verificada na biblioteca deste site sobre essas opções, então não vou afirmar nada sobre elas. Vale lembrar que produto natural também tem efeito e interação, e que qualquer coisa oferecida a um recém-nascido deve passar pelo pediatra antes.

Massagem no bebê é indicada para cólica?

A OMS diz que massagem suave de corpo inteiro pode ser considerada em recém-nascidos a termo e saudáveis, por possíveis benefícios ao crescimento e desenvolvimento. Essa recomendação não é sobre cólica, e eu não vou apresentá-la como se fosse.

Estou exausta com o choro. Isso é motivo para pedir ajuda?

Sim, e é motivo legítimo. O NICE orienta profissionais a tratarem a preocupação de quem cuida como indicador importante de possível doença grave no bebê. Além disso, exaustão de quem cuida é assunto de saúde por si só, e merece uma conversa com a equipe que acompanha vocês.

Referências

  1. Postnatal care (NG194) — NICE (Reino Unido) (2021). Consultado em 07/09/2026.
  2. WHO recommendations on maternal and newborn care for a positive postnatal experience — Organização Mundial da Saúde (2022). Consultado em 07/09/2026.
  3. Pain-relieving agents for infantile colic — Cochrane Database of Systematic Reviews 2016 (2016). Consultado em 05/10/2026.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual. Em caso de sinais de alerta, procure a maternidade ou um serviço de urgência.

Ana Angélica Abbas, Enfermeira Obstetra

Sobre a autora

Ana Angélica Abbas · Enfermeira Obstetra

Enfermeira Obstetra (COREN-MG 376.105) com mais de 14 anos de experiência clínica em Belo Horizonte. Especialista em parto humanizado, consultoria de amamentação, laserterapia e pós-parto, com prática baseada em evidências (OMS, ACOG, NICE, Cochrane).

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