As diretrizes brasileiras orientam não realizar episiotomia de rotina durante o parto vaginal espontâneo. Ela não é um passo previsto de todos os partos: é um procedimento que, quando realizado, exige indicação justificada, técnica recomendada e analgesia efetiva assegurada antes. Essa é a diferença entre uma conduta clínica e um hábito de serviço.
O que dizem as diretrizes nacionais
As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal tratam do tema em três recomendações encadeadas:
- não realizar episiotomia de rotina durante o parto vaginal espontâneo;
- se realizada, a indicação deve ser justificada, recomendando-se a técnica médio-lateral;
- assegurar analgesia efetiva antes de realizar uma episiotomia.
Leia a sequência na ordem em que ela foi escrita. A primeira recomendação retira o procedimento da rotina. A segunda não o proíbe: coloca sobre ele a exigência de justificativa. A terceira é sobre dor, e é a que mais aparece nos relatos de quem passou pela experiência sem saber que essa linha existia.
O que a evidência sustenta e o que ela não sustenta
Vale ser preciso aqui. A recomendação de não fazer de rotina é forte e está escrita em diretriz nacional. Já a lista de situações específicas em que a episiotomia estaria indicada não é fechada em um número pequeno de cenários universais: a diretriz transfere isso para a justificativa clínica do caso, e é assim que a norma está redigida.
Ou seja, não existe uma tabela oficial de indicações que você possa conferir na hora. O que existe é uma inversão de ônus: a pergunta legítima deixa de ser "posso recusar?" e passa a ser "qual é a indicação agora?".
Episiotomia e laceração não são a mesma coisa
As diretrizes usam o termo trauma perineal para o que é provocado por episiotomia ou por lacerações. A diferença entre os dois é a origem: a episiotomia é uma incisão feita pela equipe, a laceração acontece durante a passagem do bebê. Elas classificam como laceração de primeiro grau a lesão apenas de pele e mucosas.
Essa distinção importa porque circula muito a ideia de que o corte previne o rasgo. As diretrizes não recomendam a episiotomia como rotina preventiva, e a evidência vai na mesma direção: uma revisão Cochrane de 2017, com 12 ensaios e mais de 6 mil mulheres, concluiu que a política de episiotomia seletiva pode resultar em cerca de 30% menos mulheres com trauma perineal ou vaginal grave do que a episiotomia de rotina, com evidência de baixa certeza.
Quem pode realizar e suturar
A Lei nº 7.498/1986 prevê, no parágrafo único do art. 11, que às profissionais com título de obstetriz ou enfermeira obstétrica incumbe a assistência à parturiente e ao parto normal, a identificação de distocias obstétricas com tomada de providências até a chegada do médico, e a realização de episiotomia e episiorrafia com aplicação de anestesia local quando necessária.
A Resolução COFEN nº 516/2016 repete essa competência e detalha que a episiorrafia inclui as rafias de lacerações de primeiro e segundo grau. Quando o trauma é mais extenso, aplica-se o art. 3º, VIII, que determina encaminhar a mulher a nível de assistência mais complexo diante de fatores de risco ou complicações. Vale registrar que nenhuma dessas competências é exclusiva da enfermagem obstétrica: médicos também as realizam.
O que a lei mineira acrescenta
A Lei estadual nº 23.175/2018 assegura atendimento humanizado no pré-natal, parto, puerpério e situações de abortamento, nas redes pública e privada de Minas Gerais. Ela considera violência na assistência obstétrica as ações que restrinjam direitos garantidos por lei e violem a privacidade e a autonomia da mulher.
E, no art. 3º, garante que a gestante seja informada ainda no pré-natal sobre riscos e benefícios das práticas e intervenções. É esse dispositivo que sustenta a conversa antes do parto. Não se trata de acusar ninguém: trata-se de que a informação chegue antes, quando ainda dá para decidir com calma. Seus direitos estão reunidos em direitos no parto.
O que perguntar antes do parto
- Qual é a prática do serviço e da equipe em relação à episiotomia?
- Em que situações vocês costumam indicar?
- Como a analgesia é assegurada antes do procedimento?
- Se for necessária, quem vai realizar e quem vai suturar?
- Quero ser avisada antes. Isso é possível?
Registre as respostas por escrito e leve com você. Uma preferência combinada semanas antes tem outro peso do que uma frase dita no período expulsivo. A escolha de posição também entra nessa conversa: veja o que as diretrizes dizem sobre posições.
Como costuma ser a recuperação
A região é muito vascularizada e cicatriza, mas as primeiras semanas pedem cuidado com higiene, com o intestino e com a dor. Sentar, levantar e evoluir para caminhadas mais longas acontece em ritmos diferentes para cada pessoa, e não existe um calendário único.
Os sinais que pedem avaliação sem demora, segundo o NICE, incluem:
- dor abdominal, pélvica ou perineal;
- febre, calafrios ou secreção com odor desagradável;
- sangramento vaginal súbito, muito intenso ou que aumenta;
- impressão de que a ferida perineal abriu, situação em que a orientação é encaminhamento urgente para avaliação no mesmo dia.
Onde isso se resolve na prática
A maior parte dos conflitos em torno da episiotomia não nasce no centro cirúrgico: nasce da ausência de uma conversa que poderia ter acontecido meses antes. É parte do que se organiza no acompanhamento de parto hospitalar, e a cicatrização acompanhada de perto é parte do acompanhamento no pós-parto em domicílio.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.

